O Elevado como espaço fílmico

A pesquisa durou três meses e iniciou-se pelo reconhecimento da paisagem do Elevado Costa e Silva, nosso personagem principal. Caminhávamos sempre dois dos três diretores de um lado para o outro, em horários e lugares diferentes. Pedíamos para entrar em apartamentos vazios, subíamos escadas de prédios antigos, buscávamos janelas que recortassem paisagens, fotografávamos muito procurando sempre novas perspectivas para a construção do Minhocão como espaço fílmico.

O caderno de campo

O resultado desse primeiro mergulho foi a construção de um caderno de campo que continha o mapa do trajeto do Elevado e uma fotografia da fachada de cada um dos prédios que estão erguidos ao longo do Minhocão. A partir desse primeiro mapeamento nos sentimos mais a vontade para começar a conhecer as pessoas que viviam no local e suas histórias.

Nossas regras
Tínhamos apenas três regras:
Regra 1: todos os personagens do filme precisavam ter pelo menos uma janela ou uma porta de sua casa ou estabelecimento voltada para o Minhocão.
Regra 2: precisávamos encontrar personagens vivendo em todas as camadas (térreo, altura do elevado e últimos andares).
Regra 3: precisávamos encontrar personagens ao longo de toda a extensão do Minhocão.

Personagens
Com caderno em punho e regras definidas, começamos a conhecer as pessoas que viviam e perambulavam por ali. Passamos dois meses caminhando de um lado para o outro e logo descobrimos que era preciso abrir o campo com relações chaves: porteiros, jornaleiros, vendedores ambulantes, cabeleireiros, sapateiros… Essas eram as pessoas que podíamos sempre rever porque viviam no nível da calçada, conheciam todo mundo e sabiam “da vida dos outros”. Explicávamos o projetos, dizíamos que procurávamos gente que tivesse história para contar, qualquer história. Nosso maior desafio foi escapar dos depoimentos jornalísticos que jorravam na época e que basicamente giravam em torno da questão “sou contra” ou “sou a favor” da derrubada. Era difícil explicar que não queríamos necessariamente falar sobre o Minhocão, mas sobre a vida. De prédio em prédio fomos falando com os porteiros. No inicio desconfiados, ao longo dos dias se acostumavam com a gente e começaram a acreditar na nossa história. Essas pessoas nos levavam a outras, que nos levavam a outras, que nos levaram enfim aos nossos personagens. Assim, conversando com a dona da loja de consertar geladeira que fica ao lado da Casa dos Estudantes, conhecemos Guerda Schröder, por exemplo. Mas nem sempre foi assim. Havia momentos em que víamos as pessoas passando na rua e as achávamos interessantes: foi o caso de seu Alcyr Christóforo que encontramos pela primeira vez abrindo a porta da pensão em que vivia num final de tarde chuvoso. Ou de Genésio de Arruda, que encontramos atravessando a rua com suas bonecas no colo. Ou de Paulo Matsuo, que era o segurança de uma loja de móveis por onde sempre passávamos e vivia em seu pequeno mundo, cercado de referências do Japão. Quando conversávamos pela primeira vez com um personagem potencial, tomávamos o cuidado de não estarmos os três presentes, de modo que depois a entrevista fosse conduzida por aquele que não presenciou a pré-entrevista. Assim, tudo que o personagem pudesse contar, seria novidade.

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